14/05/2007

1988 – A Grande Virada

A temporada de 1988 é lembrada como uma temporada “maluca”. Muitas zebras, muitas surpresas, grandes jogadores não jogando bem e por aí vai. E o Niners não ficou imune a essa loucura. Mas antes é preciso voltar um pouquinho, mas precisamente ao 2 anos anteriores, 1986 e 87.


1986 foi um ano terrível para Joe Montana, apesar de ter ganhado o prêmio de comeback player of the year. Ele sofreu uma lesão no início da temporada que o forçou a submeter-se a uma cirurgia séria nas costas. Os médicos recomendaram que ele não voltasse a jogar, mas Montana voltou assim mesmo para os últimos 6 jogos. Àquela altura, o Niners estava com um retrospecto 5-3-1. Joecool ajudou o time a terminar o ano com 10-5-1. Foi o único ano no qual ele lançou mais interceptações (9) do que TDs (8). E uma temporada que havia começado mal, terminou não muito melhor com o 49ers perdendo para o Giants nos PO’s e Montana sofrendo uma concussão, resultado de uma pancada aplicada pelo NT do time de NY, Jim Burt (que mais tarde viria a atuar pelo Niners).

Essas seguidas lesões geraram uma preocupação por parte de Bill Walsh (que estava ameaçado de demissão), que então trouxe de Tampa um QB chamado Steve Young para ser a “sombra” de Montana. Young havia sido selecionado pelo Bucs no draft suplementar de 1985. porém, foi considerado um “bust”, e trocado com o 49ers. Sua chegada estremeceu a relação entre Walsh e Montana, que não gostou nem um pouco da contratação. Joecool, no entanto, teve um ótimo ano, lançando para 31 TDs com apenas 13 interceptações. Porém, viveu seu pior momento nos PO’s daquele ano. No jogo contra o Vikings pela final da NFC, Montana sofreu uma entrada desleal e isso afetou sua performance. Walsh então fez o inimaginável: substituiu o QB por Steve Young, que marcou 2 TDs corridos, mas não conseguiu evitar a derrota. Contudo, o desempenho do recém-chegado QB provocou uma discussão sobre quem deveria ser o titular no ano seguinte.

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

O relacionamento entre Joe Montana (E) e Steve Young era estritamente profissional.


Para piorar tudo, o WR draftado na primeira rodada de
85 para substituir Dwight Clark, Jerry Rice, parecia empenhado em “dropar” todos os passes que eram lançados em sua direção, fazendo com que todos os torcedores, a exemplo de Young, o considerassem um “bust

Finalmente chegamos a 1988. O início da pré-temporada foi o que se esperava: a mídia fazendo a festa com a briga por posição entre Montana
e Young. Ambos mantinham uma relação profissional, mas não eram amigos, como era de se esperar em se tratando de dois sujeitos extremamente competitivos. Montana, a princípio, ganhou a vaga e começou a temporada como titular.

Na 1a semana, o 49ers e
nfrentou o Saints fora de casa. Montana passou para 3 TDs, mas saiu machucado. Young entrou no jogo e não conseguiu marcar pontos. Ao invés disso, cedeu pontos ao Saints num safety. A vitória foi apertadíssima, 34-33, com Steve profundamente decepcionado com seu prórpio desempenho. Na 2a semana, Walsh pôs Young de titular, alegando que Joe estava contundido. Nem todos concordam. O OT Harris Barton, por exemplo:

Não acho que Joe estivesse machucado. Acha que Bill queria ver o que Steve era capaz de fazer. Joe não era mais um garoto (tinha 32 anos na época) e Bill estava preparando a sucessão”.

Porém, o primeiro jogo como titular de Young não foi bom. O QB sofreu 2 fumbles e o 49ers chegou ao 4o quarto perdendo por 17-13, com 58 segundos para acabar a partida e a bola na linha de 23 jardas do campo de defesa. Walsh sabia que era hora de acionar Montana na esperança de que o QB operasse um de seus milagres. E ele não decepcionou, fazendo um passe de 77 jardas para Jerry Rice que silenciou o Giants Stadium ao entrar na endzone. No entanto, o jogo seguinte, contra o Falcons, não foi animador para Montana. Ele lançou 3 interceptações e o 49ers perdeu por 34-17.

E a sorte não melhorou em toda primeira metade da temporada. Na 6a semana, contra o Broncos, Montana se machucou e deu lugar a Young que, com o jogo empatado 13-13 na prorrogação, foi interceptado e permitiu ao time de Denver chut
ar o field goal da vitória. Young foi prejudicado pelo vendaval terrível que tinha começado no segundo tempo, mas isso pouco importava. O que importava era que o todo-poderoso Niners estava 4-2.

O ataque aéreo do 9ers, sua marca registrada, simplesmente não funcionava. E com isso, o RB Roger Craig (a grande estrela do 49ers na tempora
da) teve de chamar a responsabilidade para si. E na 7a semana, ele fez o melhor jogo da sua carreira. Jogando contra o Rams, Craig correu para 191 jardas e 3 TDs, um deles vindo numa das maiores corridas da história da NFL, levando o San Francisco à uma vitória de 24-21. O jogo seguinte foi um Monday Night contra o Bears, no qual o 49ers jogou terrivelmente mal. Walsh substituiu Montana por Young, mas não teve jeito. O time de Chicago venceu por 10-9. Parecia que treinador havia perdido a paciência com Joecool, apesar de a desculpa oficial para a substituição ser sempre a mesma: contusão.

Roger Craig foi o grande jogador de ataque do niners de 88.

Na semana seguinte o 49ers enfrentou o Vikings com Young no comando. E ele não conseguia fazer o jogo aéreo funcionar. Esse Steve Young de 88 - é bom que se diga - é muito diferente do Steve Young dos anos 90. Nesse momento, ele ainda é um QB “verde”, que está conhecendo o sistema e seus recebedores. Porém, foi nesse jogo que Young conseguiu aquela que é talvez sua mais famosa jogada. Com 3:14s restando no 4o quarto e o 49ers perdendo por 21-17, o QB fez um milagre. Com a bola na linha de 52 jardas, Young fez o drop, o pocket não segurou o pass-rush do Vikings e, tudo indicava que seria um sack. Mas Young se desvencilha e começa a correr. Ele escapa de 7 defensores do Vikings antes de tropeçar e entrar na endzone quase caindo. Foi a jogada do ano de 1988.

Os dois jogos seguintes foram terrív
eis. Contra o Cardinals, depois de um bom começo (com Young como titular), o Niners entregou o jogo no último segundo. Contra o Raiders, Montana foi acionado para tentar salvar a temporada, mas não conseguiu muita coisa, e o San Francisco perdeu por 9-3. O 49ers estava com um retrospecto de 6-5 e era unanimidade em todos os EUA: a temporada do San Francisco havia acabado. Era praticamente impossível aquele time chegar aos PO’s. Lembrem-se que a NFC era a divisão mais forte na época. Foi então que o capitão Ronnie Lott convocou uma das famosas “reunião para jogadores”. E, se a maioria dessas reuniões não funciona, essa com certeza funcionou.

Contra o Redskins, o atual cam
peão do Super Bowl naquele ano, o 49ers ressuscitou das cinzas. O WR John Taylor retornou um punt de 95 jardas para TD. Outro que também ressurgiu foi Joe Montana que correu para outro touchdown. O 49ers venceu 4 dos cinco jogos restantes e conquistou a NFC West. Na final de divisão, teriam um encontro com o Vikings, que como já contei, havia eliminado o time de São Francisco no ano anterior. Logo no primeiro tempo, Montana lançou 3 passes para TD para Jerry Rice. E, no final do jogo, Craig selou a vitória com uma bela corrida, para fazer 34-9 e garantir a vaga na final de conferência. O adversário? O Chicago Bears.


Bill Walsh com Joe Montana. A dupla só veio a se acertar no final da temporada

O Bears havia vencido o Eagles por 20-12 no lendário “fog bowl”. A neblina era tão intensa que o 49ers não conseguiu estudar o vídeo do jogo, porque não dava para ver os times. O time de Chicago havia se proclamado “Team of Destiny” e, com a vitória sobre o Niners na temporada regular, a confiança era total. Para piorar, o jogo seria disputado sob ventos fortes e um frio enlouquecedor. Mas o 49ers não quis saber de nada disso e não deu chance ao Bears, vencendo por 28-3 e carimbando seu passaporte rumo ao Super Bowl XXIII, onde enfrentaria um velho conhecido, o Cincinatti Bengals.


Super Bowl XIII – “Isn’t That John Candy?”

O Cincinatti Bengals havia terminado a temporada anterior com um retrospecto de 4-11. Para piorar, o QB Boomer Esiason e o treinador Sam Wyche havia trocado farpas publicamente. Ninguém imaginaria que esse time chegaria ao Super Bowl na temporada seguinte. Mas os 2 se acertaram e Esiason foi o MVP da temporada de 1988.

O jogo também marcou
a despedida de Bill Walsh como treinador do 49ers. Foi um jogo bastante emocionante para ele, já que o treinador do Bengals era como um irmão para Walsh, tendo sido treinador de QBs do Niners no final dos anos 70 e ter ajudado a desenvolver um jovem Joe Montana. Mais do que ninguém, Wyche sabia que era bom tomar cuidado com o número 16.

O jogo começou com vários field goals, com cada tim
e convertendo 2. Porém, no final do 3o quarto, Stanford Jennings, KR do Bengals, retornou um kickoff para TD, dando ao Cincy a vantagem de 13-6. O 49ers retaliou imediatamente, andando 85 jardas em apenas 4 jogadas, terminando com um passe para TD de Montana para Rice, empatando a partia em 13-13. No final do 4o quarto, o Bengals chutou o field goal que lhes devolveu a vantagem no placar, 16-13. Para piorar as coisas para o 49ers, uma penalidade no retorno do kickoff pôs a bola na linha de 8 jardas do campo de defesa. Situação desesperadora: 3:10s para o fim do jogo, bola na linha de 8 jardas e o Super Bowl por um fio. Eles precisavam de um milagre. Eles tinham Montana.

E, no huddle antes de começar a campanha, Montana mostrou porque é conhecido como Joecool. Percebendo que seus companheiros estavam um tanto nervosos, Montana vira-se para o tackle Harris Barton e diz: “Ei H (apelido de B
arton), olha lá na endzone.” Barton repondeu: “O quê? Não estou vendo nada.” E Montana fala: “aquele não é o John Candy?” E, de fato, Candy estava na endzone comendo pipoca. Todos no huddle começam a rir e Montana vira-se para eles e diz: “vamos vencer esse jogo”. O QB do 49ers começou a carregar o time alternando 2 tipos de passe: curtos no meio para Roger Craig nas rotas "texas", e médios para Jerry Rice nas laterais. Como se a situação não estivesse difícil o suficiente, uma penalidade de 10 jardas pôs o Niners em uma 2a para 20! Mas a dupla Montana-Rice não quis nem saber: tirou a distância numa jogada só, com Rice fazendo uma recepção espetacular. Com mais um passe para Craig, o San Francisco ficou com a bola na linha de 10 jardas. Então, com 34 segundos para acabar o jogo, Montana lançou um passe para TD para John Taylor (foi a única recepção de Taylor na partida). Essa campanha ficou conhecida com o nome de “The Drive” (não confundir com a The Drive de John Elway). O San Francisco conquistava seu 3o Super Bowl.

John Taylor faz a recepção para TD com 34 segundos para acabar o jogo.

Jerry Rice foi eleito MVP da partida, tendo recebido 11 passes para espetaculares 215 jardas (recorde do Super Bowl). Joe Montana também teve uma performance sensacional, completando 23-36 passes para 357 jardas e 2 TDs.

Jerry Rice. O maior recebedor de todos os tempos foi o MVP do Super Bowl XXIII

Como eu disse, Bill Walsh se aposentou depois desse jogo. Seu sucessor foi o coordenador de defesa George Seifert (mencionado no post de 81). Muitas dúvidas pairavam sobre o San Francisco. O que aconteceria com o time? continua

3 comentários:

Bruno Macedo disse...

Muito legal essa serie sobre os times antigos do 49ers,pena que aquele ano o Bears perdeu na final da NFC,tambem tinha um time bom.

Guilherme Silva disse...

Muito legais os textos sobre essa dinastia dos niners, estou lendo todos! rs

Gabriel Mury disse...

Valeu Guilherme e Bruno. Vou ver se até o final de semana sai a temporada de 1989.