24/05/2007

1994 – A redenção

O título desta última parte da série de posts sobre a dinastia do 49ers é ambíguo. Redenção de quem? Sim, houve duas redenções de uma só vez nessa temporada. A primeira foi obviamente do time, que havia perdido para o maior rival, o Cowboys, por dois anos seguidos. A segunda foi do QB, Steve Young, que era constantemente vaiado pela torcida que não havia engolido a saída do supercampeão Joe Montana.

Como eu disse no post anterior, o Niners vinha de duas derrotas seguidas para o Cowboys na final da NFC. O clima no time era de tensão. Ninguém sabe o que aconteceria se houvesse uma 3a derrota. Era tudo ou nada. O problema era simples: o Cowboys era bem mais time que o 49ers, sobretudo na defesa. Se quisessem ter alguma chance contra o time de Dallas, seria preciso ir às compras. Então a diretoria e comissão técnica do San Francisco entraram no ano de 1994 com um único objetivo: equipar o time para vencer o Dallas Cowboys.

E as compras foram muitas. O time começou a temporada com 24 novos jogadores (!), a maioria com contratos de 1 ou 2 anos. Em nenhum momento os jogadores se iludiram. Eles sabiam que, ou ganhavam do Cowboys ou então, rua. Talvez até por isso, o 49ers, tradicionalmente um time elegante, comportado e discreto, se viu às voltas com jogadores falastrões e espalhafatosos. Definitivamente, a diretoria percebeu que era preciso uma mudança geral de atitude.

Vamos então mencionar as principais novas caras do time. O primeiro é ninguém menos que Deion “prime time” Sanders, que veio do Atlanta Falcons. Juntamente com Eric Davis (que já era do time), formaram talvez a melhor dupla de CBs da história da franquia. O LB Ken Norton também se juntou ao time da Bay Area. Vindo do próprio Cowboys, sua chegada significou uma vingança do Niners, já que o Dallas havia tirado o LB Charles Haley de San Francisco anos antes. Além deles, vieram também os LBs Gary Plummer do Chargers e Rickey Jackson, do Saints.


Deion Sanders. Provavelmente o jogador mais veloz da história da NFL, Sanders deu nova vida à combalida defesa do 49ers.

Esses jogadores foram ajudados por uma classe de novatos fortíssima, que incluía o LB Lee Woodwall, o FB William Floyd e o DT/DE Bryant Young, sendo que este último está no time até hoje. Com todas essas aquisições, o 49ers esperava atropelar a NFL inteira para depois pegar o Cowboys na final. Mas não foi bem assim.

A temporada

A título de curiosidade, a temporada de 1994 foi a primeira com o salary cap, além de marcar o aniversário de 75 anos da NFL. Por esse motivo, vários times usaram uniformes throwbacks, inclusive o Niners, que escolheu um modelo dos anos 50, cuja característica mais marcante era o fato de as calças serem brancas ao invés de douradas.

O 49ers começou arrebentando o Raiders, vencendo por 44-14. Porém, todos aguardavam mesmo era a partida seguinte que seria entre o Niners e o Chiefs, de Joe Montana. O duelo dos QBs foi precedido por intensa cobertura midiática. Antes do jogo, os dois não se cumprimentaram, mostrando todo o clima de tensão existente. E Young, mais uma vez, não conseguiu se livrar da sombra de Montana. O 49ers perdeu por 24-17, em grande parte devido a pífia performance da linha ofensiva, que na época era composta por 4 reservas. No entanto, o pior para Young não foram os sacks, e sim ver sua própria torcida vibrando com a vitória do adversário, por cause de Joe Montana! Até hoje vários torcedores admitem que aquele foi o único jogo em que torceram contra o 49ers. Não tinha jeito, ou Young ganhava o Super Bowl, ou então jamais seria aceito.

Steve Young e Jerry Rice. A 2a dupla com maior número de TDs na história da NFL.

Os problemas na linha ofensiva continuaram e atingiram seu ponto máximo na 5a semana, contra o Eagles. Com o 49ers tomando uma surra histórica de 40-8 e Young sendo derrubado em quase toda a jogada, George Seifert substituiu seu QB por Elvis Grbac (lê-se Guêrbéc). E Young simplesmente explodiu. O QB admite que estava doido para que Seifert partisse para cima dele para brigar e então, começou a berrar toda a espécie de impropérios na lateral do campo tentando irritar seu treinador, que não lhe deu a mínima atenção. E se o Young saiu frustrado por não ter conseguido sair no tapa com Seifert, ele conseguiu algo muito mais importante: o respeito de seus companheiros. É somente após esse momento que o time aceita Young como seu líder. Como o TE Brent Jones conta:

“Todo jogador quer um líder que não tenha medo de mandar o treinador para aquele lugar”.

E com seu novo líder, o 49ers começou a se acertar no jogo seguinte, contra o Lions em Detroit, ao vencerem de virada por 27-21. Após isso, mais 3 vitórias: contra Falcons (42-3), Buccaneers (41-16) e Redskins (37-22). O jogo seguinte era o mais aguardado da temporada regular. O Niners enfrentaria, em casa, o todo-poderoso Cowboys.

O QB do Cowboys, Troy Aikman tinha uma seqüência de 97 passes tentados sem interceptações. Mas na primeira posse de bola do Dallas, o FS Merton hanks acabou com a festa. Logo depois veio o primeiro TD do Niners, com um longo passe de Young para Rice, que bateu o CB Larry Brown na disputa pela jumb ball. O jogo estava 14-7 para o 9ers com o Cowboys perto da endzone. E quando parecia que iriam empatar, Hanks apareceu novamente para salvar o dia. Então, para fechar o jogo, passe de Steve Young para Brent Jones, exorcizando assim o fantasma do Cowboys.

Nos seis jogos seguintes, o time obteve cinco vitórias, perdendo apenas o último jogo, para o Vikings. Mais uma vez, era hora dos playoffs.

Na final de divisão, o 49ers enfrentou, como de costume, o Chicago Bears. E a surra foi grande, 44-15. Porém, o que importava era o jogo seguinte. O jogo que todos aguardavam. Segundo Steve Young:

“A temporada não interessava. O que interessava era vencer o Cowboys em janeiro. Esse foi o único motivo pelo qual fomos para o training camp. Não foi para enfrentar o Falcons nem o Saints. Foi para enfrentar o Cowboys em janeiro”.

A Redenção

O jogo contra o Cowboys teve um começo de tirar o fôlego. Quem chegou um pouquinho atrasado perdeu 3 TDs do 49ers. Tudo começou numa interceptação de Eric Davis, que correu toda a distância até a endzone. Na posse seguinte, fumble do WR do Dallas e passe de Young para o RB Ricky Watters marcar. Depois, no retorno do kickoff seguinte, novo fumble do Dallas e novo TD do 49ers, dessa vez de William Floyd. 3 turnovers seguidos de TD em 7 minutos!

O Cowboys encostou, e a diferença caiu para 10 pontos, 24-14. Mas com 8 segundos para acabar o primeiro tempo, Young matou o jogo com um passe magistral de 40 jardas para Jerry Rice.

Young completaria a redenção sua e do Niners, correndo para o último TD, com sua raça característica, metendo a cabeça no meio de 3 defensores do Cowboys para pegar a última jarda. Final de jogo, 49ers 38-28. Young ia para o SB.

O que se seguiu foi uma das cenas mais marcantes da história recente do Niners: Young dando voltas pelo campo, comemorando com os torcedores feito uma criança. Ele finalmente tinha conquistado o coração dos 49ers faithfuls. Ele relembra:

“As mesmas pessoas que tinham dito que ‘Joe é o cara e isso nunca vai mudar’, agora diziam ‘não tem problema. Joe consegue e Steve consegue e está tudo bem, porque somos de São Francisco e somos torcedores do 49ers. Foi como se o coração de todo o mundo tivesse crescido o suficiente para abraçar nós dois. No ínicio do ano, contra o Philadelphia, meus companheiros me aceitaram e mais tarde os torcedores me aceitaram. Finalmente éramos todos um só”.

Steve Young correndo pelo campo com a bola após a vitória sobre o Cowboys na final da NFC



Superbowl XXIX – A coroação

Tal qual o SB XXIV, esse SB foi de um time só. O ataque do 49ers, comandado pelo então coordenador de ataque Mike Shanahan era demais para a defesa do San Diego Chargers. E isso ficou claro logo no início, quando Young encontrou Rice para marcar o primeiro TD do jogo, na época o TD mais rápido da história dos SBs. Logo depois, Young passou para Watters deixar sua marca.

Nada mudou no segundo quarto. Young continuava impossível, dessa vez passando para Floyd marcar. Depois foi a vez de Watters marcar pela segunda vez em novo passe de Young. Watters ainda marcaria 1 TD corrido e seria um dos jogadores a deter o recorde de 3 TDs num SuperBowl, a saber: Jerry Rice, Roger Craig e Terrell Davis. Mas Jerry Rice, vendo o moleque empatar seu recorde, logo fez seu terceiro TD, passando a ser o único jogador a marcar 3 vezes em 2 SBs. E com isso que também conseguiu seu recorde foi Young, único QB a passar para 6 TDs em um SB, batendo a marca de... Joe Montana! O 49ers venceu por 49-26 e se tornou o primeiro time a ganhar o SB 5 vezes.


Jerry Rice e Steve Young comemorando o 5o SB da história do 49ers.

A jornada havia chegado ao fim e, para celebrar, o tradicional banho de gatorade em George Seifert, que dias antes do jogo havia deixado bem claro:

“Eu não quero aquele banho idiota. Nem pensem nisso”.


George Seifert bem que tentou, mas não escapou do banho de gatorade.

Outro momento famoso é quando Young vira-se para um companheiro na lateral e grita: “somebody take the monkey off my back”, ou seja, “tirem o peso das minhas costas”. Para muita gente, essa foi a confissão de que, de fato, a sombra de Montana o atormentava. Young, anos depois se arrependeu do comentário:

“Acho que aquilo passou a mensagem errada. Eu tive uma tremenda oportunidade, em ser treinado por um dos maiores técnicos de todos os tempos, por um dos maiores jogadores de todos os tempos e por uma série de jogadores que serão Hall of Famers. Você está sendo treinado para ser grande. Agora, vá ver o quão bom você é capaz de ser”.

Mais tarde, falando da pressão que existe sobre o atleta, Young comentou:

“Não importa o que aconteça, existem mil argumentos pelos os quais você não é bom. ‘Ah, ele não ganha o SB’, ‘ah, ele não é capaz de marcar um TD nos 2 minutos finais’. Pela natureza do jogo, os cínicos levam a melhor na maior parte das vezes. Então você acaba reagindo, porque faz parte da sua natureza enquanto atleta: ‘você diz que eu não capaz? Eu vou provar que você está errado e vou usar isso para alcançar algo. Sim, eu tenho força interior para alcançar, mas você me deu um estímulo a mais, eu quero mais porque você disse que eu não sou capaz? E quem é você? Ah, é um cara que escreveu algo, é um cara na rua, é um cara no rádio, é o seu tio Bill que é um fanático pelo Cowboys e você já está de saco cheio de ouvi-lo. ‘Eles’ são todos aqueles que amam esportes e gostam de colocar obstáculos para os atletas. E aí, você vai derrubá-los. Então, de repente, você tem o troféu do SB em sua mãos. ‘Eles’... O que ‘eles’ vão dizer? O quê? O que vocês vão fazer? Eu sou um campeão do SB e então sentem e relaxem porque vocês vão tirar um dia de folga. Amanhã, nada será dito. Depois de amanhã, você podem dizer que ‘ele não é capaz de ganhar de novo e blá blá blá’, mas hoje não. Hoje não. Eu tenho direito a 24 horas de silêncio e vocês têm de ir descansar”. fim

7 comentários:

Guilherme Silva disse...

Que beleza essa história da dinastia dos Niners, muito boa mesmo Gabriel!

Gabriel Mury disse...

Obrigado Guilherem. Deu trabalho mas valeu a pena. rs Sobretudo essa de 94 que, junto com a de 81 são minhas duas temporadas favoritas, do ponto de vista histórico.

Bruno disse...

Excelentes matérias.

A temporada de 1994 foi a primeira que eu assisti na NFL, quando eu só tinha 8 anos e Steve Young teve o ano mais perfeito da história de um QB. E esse parágrafo final é emocionante.

E a série que fizeram com todos os times campeões de SB é sensacional. Se lançarem em DVD é algo que com certeza eu vou comprar.

Gabriel Mury disse...

Obrigado pelo elogio Bruno.

O Steve Young realmente é fora-de-série. Algo que eu sempre admirei nele foi o fato de ele nunca ter tentado fugir da responsabilidade de substituir o Montana. Ele nunca virou e disse algo do tipo: "isso não me preocupa. Eu sou eu e ele é ele e eu só estou tentando ajudar meu time." Ele sempre encarou de frente, sempre disse nas entrevistas que "Joe ganhou 4 SBs e eu também tenho que ganhar o meu". Sempre achei isso muito legal nele.

Esse último parágrafo eu traduzi do America's Game mesmo. Eu estou tentando ver se encontro o vídeo do Steve Young falando, porque fica mais emocionante ainda.

Bruno disse...

É legal ver que se o Steve Young tivesse uma carreira tão longa quanto D. Marino, J. Montana, J. Elway e B. Favre, talvez tivesse muitos dos recordes que hoje estes 4 aí tem, além dos próprios recordes dele.

Felipe disse...

Gabriel, é verdade o que o Bruno disse, sobre uma série com os campeões de SB???

Gabriel Mury disse...

É sim Felipe, e vai ser lançada em DVD em setembro. Voc6e pode comprar pelo site www.cdpoint.com.br . Eu sempre compro lá e é 100% garantido.